28 de jan. de 2011

VIRA-RIOS, AMIGO DO IVO - - 9ª entrevista

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Para melhor enteder as confusões mentais do Maluco,
convém iniciar a leitura pela 1ª entrevista, de Jan 2010.
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28-01-11

— Pão Doce pare de tanto gesticular! E que tanto fala sozinho? É o seguinte, cara, preciso de uma forcinha sua. Um amigo me escreveu referindo-se a umas fotos antigas da Capital Paulista, que eu lhe enviara.
Assim como as antigas cidades vão desaparecendo por substituições, o Ivo associou o fato de nós também irmos passando.
Então, você, que às vezes se aproveita algo do que diz, poderia me sugerir alguma expressão, para retribuir ao meu correspondente?

— Ô... da canoa! você de novo, no meu pé? Tá loco! Não me dá sossego...
— Desculpe o jeito, Pão Doce. Me releve a intromissão. É que estou um tanto apressado.
— Com sua boa sorte, se dê por felizardo. Em atenção, interrompi a audiência espiritual que cedia ao meu fraterno amigo, um ex-presidente africano, Ide Amim Dada, que, antes de me conhecer, governava sob conselhos de crocodilos.
— Mas logo ao Amim Dada?
— Sim, rapaz. Sem preconceitos, atendo a todos que me procuram em busca de pensamentos frutuosos. E por atender até defuntos, lhe darei duas idéias, sob compromisso de você, logo após, queimar o chão d’aqui. Amarrado?
— Sim, sim. Meu tempo também urge.
— Então diga pro seu amigo que a vida é um chocolate amargo. Amarga devido as safadezas que nos impõem os nossos semelhantes, filhos não se sabe de quem. E adoça porque, apesar das adversidades, tem o sabor de boas surpresas e amizades.
            Então, vamos. Escreva, lá, as seguintes idéias. Deverão figurar como de suas impressões de vida, e do esporádico papa-rios que você é.
— Será texto longo?
— Só sei que já vou iniciar o ditado. Após o epílogo, deixe-me livre, saia da minha presença.  Em meu cérebro estou sendo insistentemente requisitado por consulentes telepáticos, internacionais e de outros mundos.
Se você concluir que o rascunho serve, envie-o ao Ivo.  Se ele vai gostar, ou não, é problema seu. 
        Anot’ aí –

PARQUINHO

Vou passando... Nessa passagem pela vida
tantas coisas me vão chegando... e passam.
E com elas um dia também serei passado.
Cada evento cada paisagem um sorvo de paixão.
Entro no elevador, me sorri tão candidamente
a idosa de cabelos azulados.
Abre-se a porta – que vejo? Uns, ridentes
outros não. O Office-boy muito apressado.
Sigo achando tudo interessante!
No restaurante de luxo, uma desproporção.
Ingiro bem menos da variação mostrada.
Meu bolso ferrado geme a dor da jactância.
Tudo bem!
No escritório de um amigo, me apresentam
um manipulador. A criatura afronta-me a cabeça.
É sugando que enriquecem tão depressa.
O mar é bom. Entre peixes, alimenta medusas e moréias.
Mesmo assim que alegria vivenciar realidades!
À margem do rio, eu, duas laranjas
mais a paçoca e carne seca.
Um banquete! Mãos lavadas. Sob as unhas
a tarja preta - barro entreunhado.
Não dou a mínima! Tenho a fome
que me faz contente se consigo saciá-la.
Almoço como um rei
contemplando a majestade das águas correntes.
Deixo a canoa na praia. Logo ali
um humilde casebre me desperta a sensibilidade.
Ninguém por perto. Parece-me ...
ah sim ao longe ouço vozes.
Pela trilha vão chegando seis crianças e os pais.
Todos em andrajos. Um chuvaréu de risos!
Surpreende-me tanta alegria
vivida em precárias condições.
Me enternece o que vi e partilhei.
Em momentos vários assim e por assim
que espetáculo viver!
Por onde quer que nos fundões eu tenha andado
sempre fui bem acolhido.
Gosto de minhas andanças.
Durante horas rodo nas estradas.
Cada quilômetro uma existência.
Nos longos trajetos vivo várias vidas virtuais
volvidas às veias e ventos da viração.
Após cada curva de rio uma surpresa
um novo panorama.
Minha carteira magra... meu carro antigo e lento.
Sorte! Se rápido, me viria o tédio
de um Brasil muito apertado.
Gosto dos meus parentes.
Gosto de tudo, gosto dos poucos amigos leais,
morrendo de amores pelos falsos.
Gosto dos meus objetos,
da cama em que repouso.

É... os anos têm me passado.
De manhã ao espelho, ouço das minhas ralas cãs
e dos avisos que no rosto vão surgindo...
aos poucos sigo ouvindo a Voz Materna:
— Vem filho meu! Já brincou por um bom tempo.
Vá se despedindo do parquinho.
Quanta saudade estou sentindo, meu amado...
Vem aos meus afagos, filho do meu ventre...
Volve à eternidade do meu colo!

Enxugo o rosto mantendo os olhos no espelho.
Ainda com tanto apego às diversões
penso em respondê-la mentalmente:
— Per’ aí Mãe! Já vou! Só mais um pouquinho...
Mais umas tantas pedradas dos teus em minhas costas
só mais umas 300.3  idas para o encanto dos meus rios.
D’aí eu volto. Tá bão? Um beiiiiijo Mãe! ... ... ...

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