5 de jan. de 2011

O MALUCO NO METRÔ - -- 2ª entrevista





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29-01-10           
           
No dia seguinte, à tarde, o metrô seguia rumo ao bairro. Nem vazio nem lotado. Poucos viajando em pé.
Mesmo assim, sem importar-se com o surpreso olhar dos passageiros, o Maluco ia encaixado no traseiro de uma balzaca morena, portadora de duas alianças no anular esquerdo. Pelo consentimento e fisionomia de "até que enfim ... "  a cafona denotava ares de fogoso prazer naquele risca-fogo. 
No encaixe, de tão ardente que lhe era o frenesi,  o Maluco não podia conter o tremelicar das pernas. Por momentos punha-se até vesgo, cego, talvez surdo na encostação. 
Mas o que é bom nem sempre dura muito. Depois de largo tempo no encaixe, ao chegar numa estação, a morena largou o balaústre, volveu olhos sensuais de gratidão ao encostador... e seguiu destino.
Porém, a cena pública assume  ares de escândalo, diante da exposta protuberância fálica do felizardo.
Por coincidência, dentre a platéia da cena estava um idoso que, ontem, ouvira o discurso do doidão, lá no ônibus. Em socorro, visando remediar a situação, o ancião levantou-se oferecendo o assento, que foi prontamente aceito pelo portador do falo em riste.
Agora em pé, de camiseta da seleção canarinho, o idoso com u’a mão agarrava-se no balaústre do vagão; com a outra, à muleta. Mesmo nesse desconforto, o gentil cavalheiro,  para colaborar na dissuasão dos constrangimentos, inquire...

— Percebo que o senhor é o mesmo de ontem, que discursava a uma senhora grávida e aos circundantes. Após ouvi-lo sobre dinheiro quente e dinheiro frio, confesso admirar a sua franqueza. A cada momento o senhor insinuava incorporar o caráter de alguns notórios personagens da política. 
— Sim, meu si'or, sou eu mesmo... o futuro governante de alguma pátria, muito distante daqui. Mas eu sou eu, que trago, em mim sintetizada, a humanidade inteira. Daí, em parte, a sua percepção.

— Governante? Mas cá entre nós, o senhor não percebeu a péssima demonstração moral que acaba de exibir em público, ao permanecer tanto tempo enrabando a viúva morena, aos olhos de tantos passageiros? 
— Meu subornável eleitor... não se trata de imoralidade. Para mim, foi mero ensaio  político.
Veja. Imaginei a viúva como sendo a pátria morena, que um dia governarei. E para a pátria imaginada foi uma experiência de adaptação à realidade que a espera, se ela personificar o que planejo. A pátria deverá habituar-se a dar urros de felicidade, sempre que enrabada por mim e pelos meus. Tudo é questão de hábito, si'or, mesmo tratando-se de pátria. De início, a pátria sentirá efêmera estranheza quando submetida às minhas diretrizes. Porém, muito logo passará a contorcer-se em gozos sempre que eu e os meus a enrabarmos. “É meu estilo de governo”.    (esse é o obsessivo bordão do pinel).
Será que sua inteligência me entende, si'or?  Então, note o paradoxo entre nossas óticas morais e cívicas. Enquanto seu enfoque a meu respeito é de imoralidade - para mim, enrabar a viúva  é simples reflexo político-doutrinário, próprio do genuíno estadista que sou.

Consoante ao dia anterior, a decidida fala do pirado começa atrair atenção dos que há segundos se escandalizavam.
Então, replica o idoso deficiente das pernas -
            — Presunçoso estadista... sua afirmação traz engano. Declarei-me apenas admirador, e não seu subornável eleitor. É que minha idade e experiência acumulada não me permitem votar irresponsavelmente. Isso é coisa para o eleitorado adolescente, dos sem-noção, de matutos desinformados e de urbanóides distraídos. Todos esses, compondo a grande maioria eleitoreira, pelo voto obrigatório se fazem refletir no tipo de políticos que  elegem. Conturbadas mentes coletivas resultam em representantes medíocres, exceto eu e os meus...
                       
            — Epa! Dá licença, si'or... Os idosos são mesmo isso aí... principalmente se forem aposentados. São todos metidos a sábios responsáveis conforme seu exemplo. Mas todos inúteis aos meus propósitos...
         — E quais são seus propósitos para os idosos aposentados, na pátria que governará?
            — Pela inutilidade que apresentam, nenhum, si'or.
          Mas eu e meus mãos-limpas seremos complacentes, demonstrando-lhes especial consideração. Aos aposentados, independentemente da relevância dos trabalhos que cada um tenha prestado; dos anos de contribuição e respectivas percentagens de recolhimento aos cofres da previdência; enfim, todos os senis aposentados serão nivelados em vala salarial mínima e comum, para que morram em santa paz.
        Já que a morte nivela a todos, os nivelarei por antecipação.
       Não se pode ignorar a confortável serenidade gozada pelos idosos,  advinda  da generosa restrição alimentar e de recursos médicos.
     E que dizer da resignação que graciosamente os aposentados sentirão, nas filas do assistencialismo que por mim será estruturado? Quanto lhes valerá um abreviado final de vida, livres de preocupações? Se para uns esse franco estilo de governo parecerá insensível, para mim e os meus será ato de misericordiosa finalização. Quanto a esse conforto gratuito, um dia, os idosos haverão de me render olas em reconhecimento.
          Por mais, si'or, pergunto: remédios, boa alimentação e algum lazer fariam com que os inúteis retornassem à vida ativa, aptos a promover desordens, terrorismo, assaltos, assassinatos em massa, seqüestros, ou mesmo farão com que retornem à simples condição de ovelhas geradoras de tributos?
         Mas se é com tais complementos de terror que me firmarei no governo perpétuo daquela pátria, deixando as minorias em desarvorada defensiva, por qual razão deverei desperdiçar dinheiro com os que me não apresentam serventia?
   Ora! se, invejando meus apaniguados, os aposentados nutrirem desejos de sugar o leitinho que anteriormente depositaram nos seios da pátria,  então minha maioria no Congresso Federal os colocará  mamando em tetas de silicone e rabos de cascavel.

            Intrigado, atalha um dos ouvintes:

— Me desculpe, mas o sinhô tá sendo grosseiro a esse outro sinhô idoso e deficiente. Além de lhe ceder o assento que o safou do ridículo, ainda o retribui com cínicas palavras?
— Engana-se, meu estressado aparteador! Sempre fui gentil, meloso... por vezes até engraçadinho às massas dos sem-noção, que rindo, por ser de vício o rir, me levarão ao poder. Mas para mim, meu caro e ingênuo opositor, sua revolta é muda. O si'or é minoria ! Esta situação que aborda me convence do que derramarei sobre a agitada minoria ética e moralista, na conjuntura daquela pátria. Os imprestáveis aos meus propósitos serão tratados como tal. Enquanto cínico nas ações, serei terno e grato nas palavras. Não perderemos a ternura. É com o que se regozijarão meus manipuláveis eleitores, por ser assim o meu estilo de governo.

Entre agarrado na muleta e o balaústre do vagão, o velhote retoma o diálogo com o propósito de embaraçar o astro:

— Mas e quanto àquele seu plano de organização do narcotráfico, com os seus do peito? Continua o mesmo?
— Esse será o quesito primordial. Será tudo muito bem estruturado, si'or. Em minha base eleitoral teremos até um vasto aeroporto inteiramente a disposição dos meus narcotraficantes. É o meu estilo de governo.
Ai dos que se atreverem concorrer conosco, na venda de pedras e trouxinhas. Prenderemos todos. A sociedade moralista e tonta ficará maravilhada. Julgará estar sendo protegida, sem perceber que estamos apenas prendendo os concorrentes, para preservarmos nosso monopólio de venda em todos os pontos da augusta pátria.
Com a legalização dos entorpecentes e incentivo ao consumo de bebidas alcoólicas, bilhões de pacaus (PC$ = nome da moeda que será adotada) vindos dos tributos abarrotarão ainda mais os cofres da viúva morena.
Aos viciados e pequenos traficantes, forçaremos a sociedade vê-los simples usuários.
Seremos previdentes. Como seguro social e tranqüilidade aos drogados, criaremos postos estatais para gratuito fornecimento de entorpecentes, aos enlouquecidos pelo uso.
     Mas aos que desejarem se livrar da nóia, implementaremos instituições e ONGs filantrópicas, mantidas pelos donativos e impostos arrecadados, para consolo às vítimas. Paralelamente, os dirigentes dessas instituições, por mim nomeados, irão descobrindo frestas para rapinar a maior parte das verbas públicas àqueles órgãos destinadas.
         Entorpeceremos o mundo com nossas exportações. Os campesinos, fornecedores de matérias primas às destilarias de drogas, todos serão, exemplarmente,  privilegiados por mim, na condição de narcopatriotas, si'or. 
         A imensa lucratividade os manterá em aplicado esforço na defesa do nosso monopólio. E, como ainda ontem eu dizia, suas fortunas e violência nos assegurarão perpetuidade nos poderes. É o nosso estilo de governo, si'or.

          Mas torna interferir o idoso deficiente:
          
        — E da corrupção? E da sua loucura, o que dirão?
— Quanto à corrupção, si'or, meus auxiliares darão sumiço em toda e qualquer documentação que prove meus desfalques em cofres públicos. Manipularão processos administrativos e judiciais, movidos contra minha magnânima pessoa. Minhas legiões de asseclas, todos por mim já favorecidos de alguma forma, comparecerão agressivos e em massa, pressionando em minha defesa, nas audiências em que eu seja acusado de afrontosas roubalheiras e  outros crimes. Tudo e todos estarão, sempre,  nos conformes da exemplar doutrina corrupta,   do meu estilo de governo.
Sofismas comporão nosso arsenal de múltiplas e mortíferas armas contra qualquer oposição que insinue organizar-se contra meu regime de rapinagem democrática.    
Na pátria que governarei, não teremos delinqüentes -  apenas violentos; nem teremos caloteiros desavergonhados - apenas respeitáveis inadimplentes; e nem haverão de se proliferar estelionatários por todas as partes, passadores de cheque sem fundo - mas existirão, apenas, os confusos, descuidados, esquecidos, que nunca sabem nem se lembram de nada.  
Nem teremos estradas em frangalhos,  nem placas de sinalização escondidas pelo mato; nem existirão rodovias com curvas de aclive invertido, graças aos nossos competentes engenheiros... Porque, meu si’or, todas desgraças rodoviárias serão, sempre, imputadas aos motoristas titulados como imprevidentes,  diante das normas criadas pelos cínicos gestores do trânsito e tráfego viário, sob meu governo.
Quanto a minha suposta loucura, si'or, a minoria dos meus súditos, por destituídos de mínima percepção, de fato, me difamarão como pinel. Mas, assim como o si'or depende dessa sua muleta e Deus não sobrevive sem o Demônio, também a humanidade estaria desarvorada não fossem as fábricas de esquizofrenia e o charlatanismo explorador. 
Em verdade, um dia, a humanidade se dará conta de que se eu liberar o meu antônimo  serei a salvação do mundo. 

Quase desapercebido, por ali estava um  adolescente  de uns quatorze anos. Entre admirado e confuso, arriscou-se ao maluco...

— Como o senhor sabe dessas coisas todas? Onde as aprendeu?
— Meu precioso rapaz... comove-me seu semblante ávido de saberes, o que é próprio de sua encantadora fase primaveril. Mas, filho meu - que nunca o tive - respondo-lhe sem nuanças de mistérios. As aprendi tratando com os humanos. Uns magníficos, outros não mais que sombras  difusas,  independentemente de seus cargos e patrimônios. E também aprendi em livros de sebo e pelos exemplos da criminalidade política.
     Atencioso jovem... permita-me estender-lhe alguns conselhos. Farei sobre-humano esforço para que, durante ospróximos segundos, meus pespensamentos permaneçam livres de assaltos obsessivos.
          No decorrer de sua existência, divirta-se sem detonar a própria saúde e a de outros. Estude, leia sempre e sempre. Permaneça atento, observando os seus semelhantes. Analise os estágios de elevação ou de flagelo mental, principalmente dos detentores de ascendência hierárquica em  estruturas de poder. Anote os pontos em comum e os dispersivos; distinga entre o que tende ao normal e ao deplorável. Não lhe será difícil distinguir entre o que encoraja e harmoniza, ante ao que infama e aniquila. 
         Sinta como se tudo estivesse se passando no âmago de seu próprio ser. Pouco a pouco, dia a dia, vá juntando as sucessivas conclusões. E assim, ao longo do somatório, você obterá consolidação dinâmica em sua consciência.
        Mas das marcas pessoais que você, e outros, e mais  outros, possam coletar no decorrer dos anos, as sínteses poderão destoar entre umas e outras, conforme as tendências congênitas de cada um.
        E são essas disparidades que perpetuamente estarão pondo a prova o convívio democrático entre os portadores das diversas concepções.
         Ouça mais: mais lhe poderá valer a pouca honra de um delinqüente encarcerado, do que  a  louvada  autoridade   outorgada a ensandecidos, sádicos e corruptos, lotados em  fortins de truculência. Nas pátrias, toda avalanche de roubalheiras vem dos que por ela agem e dos que com eles negociam.
        Pelo panorama do horizonte próximo,  melhor seria se, nos vindouros minutos, você esquecesse tudo que de mim ouviu... Porque não pretendo lhe criar desajustes ante o  macabro mas real refrão, : "em pátria de sapos, de cócoras com eles." ... ... ...

Agora quem interrompe o maluco é uma senhora moreninha, franzina, de xale azul-marinho, mas de suaves feições e rara lucidez. Interessada em um tema, que duvida estar incluso nos planos para a pátria imaginada, pergunta:

— Mas, senhor Pão Doce,  e em relação ao meio ambiente da sua pátria, que diretrizes terá o seu governo ?
— Mi'a si'ora... Este é mais um tema que requer talento na tessitura. Por prevenção, para ministra desse tal meio ambiente, nomearei uma gostosa mas incisiva fazendeira do centro-oeste daquela pátria. Será capaz de se fazer trincando os nervos quando ouvir alguém falando em meio ambiente. Todavia, antes de nomeá-la, lhe dedicarei tratamento de pátria. Ambos faremos algumas viagens em pé, no metrô lotado, para adaptá-la ao meu estilo de governo.
Mas não é tudo. Instalarei lixão sobre manancial, a partir dos primeiros trinta metros distantes de bairros densamente povoados, pouco nos importando a segurança da saúde pública. Com as milhares de toneladas de lixo e rejeitos industriais, soterraremos as nascentes cristalinas existentes na  depressão, assim como, por decorrência, destruiremos as várias vertentes de jusante, cabeceiras de bacia fluvial. Nesse lixão, engendraremos criatório de ratos e insetos peçonhentos, vetores de doenças; produção de incêndios e gases tóxicos.  
Para burlar a lei de crimes ambientais, e confundir a vizinhança prejudicada,  à tal obra de arte darei a denominação de  "Bolsão de Entulhos". A tanto, será acrescida a vantagem de inviabilizar a propriedade vizinha do entorno da podridão, pertencente a quem, antes da instalação do lixão, se negue a nos entregar sua terra à minha empresa loteadora. 
Não bastando, digo que uma arte só é estupenda quando confrontada com outra de arte maior. Assim sendo, permitirei aos cupinchas, da minha confraria corrupta, instalarem cemitário sobre outro ramo do manancial, de modo que o córrego formado passe pelo meio do campo diabólico, conduzindo caldo de defuntos para uso das diversas propriedades da baixada. E assim estará complementada a destruição ambiental e águas das redondezas. Fazer o jogo sujo por completo é do meu estilo de governo, si’ora.
      — Mas, senhor Pão Doce... a lei de crimes ambientais poderá impedi-lo, ou até puni-lo pelo crime planejado...
Mas o debilóide interrompe...
        — Isso é o que a si'ora, por ingênua, pensa. Na pátria que  construirei, serei senhor absoluto. Eu e os meus da mesma corja seremos capazes de disfigurar, ou arrepiar, qualquer lei.
Meus  títeres de outros órgãos públicos, fiscalizadores do meio ambiente, permanecerão se fazendo de desinformados, entrincheirados na burocracia do faz-de-conta, todos, com seus rabos   enroscados nos galhos dos meus poderes e ordens. 
Mesmo porque, afinal, seremos do mesmo partido de  canalhas assumidos. Mensalinhos do dinheiro frio, ou troca de facilidades e privilégios, gritam alto a ouvidos  dos sem-moral,  conforme, ontem, já dei a entender a outra platéia de eleitores subornáveis.
E saiba, vamos além. No zoológico, permitiremos funcionamento de camelôs vendendo esqueletos de animais selvagens, para incrementar esse próspero negócio. Todas essas façanhas e outras mais, são do meu impecável estilo de governo.  
Concomitantemente, si'ora, o intenso e constante auto-elogio me será diretriz fundamental. Com tanto, ao mesmo tempo em que estarei poluindo e devastando, sem que os governantes de outros reinos o saibam, construirei minha  idônea imagem junto aos desinformados quanto ao meu verdadeiro mau-caráter. Por influência dos meus auto-elogios, os conduzirei a que me elejam  "Emérito Presidente da Associação Protetora de Algum Médio Tietê", da futura pátria que assaltarei.
Esse e outros tantos títulos os haverei de conquistar, para aumento do meu já invejável prestígio político, si'ora. Por pressão de dois dos meus ministros, me farei condecorar em alguma das forças armadas. Posteriormente, pelas demais, visando os mesmos propósitos - conforme convém a um valente guerreiro. Enfim, si'ora, em minhas decisões e ações, terei menos escrúpulos que qualquer cuiara de esgoto, por ser do meu estilo de governo.
Mas... si'ora, vamos ao que me perguntou. Por sua meiga e linda expressão facial, pelo penteado denunciante de sua religiosidade, notei sua aguda inteligência no veneno da pergunta formulada. Seu interesse deixa transparecer que a si'ora entende bem do ramo, em se tratando de meio ambiente. Por acréscimo, encanta-me sua tão cândida voz de evangélica fundamentalista,  mi'a  prezadíssima e subornável  eleitora ...
— Se sou evangélica, ou não, não é de sua conta !  O que importa é que eleitora subornável é a puta que te pariu, seu rato-de-esgoto, corno, filho de uma vaca !!! ...  ...  ... ... ... ...

A linda senhora avançou de unhas em forma de espinhas de peixe, contra o rosto do Maluco. E daí formou-se um forrobodó no vagão. Todos tentando conter aquela senhora, com razão indignada.
Um tanto pálido, para disfarçar o medo,  o  Maluco simulava serenidade, tentando sossegar os preocupados com a situação criada, dizendo-lhes ...

— Deixem-na, meus eleitores, deixem-na ! Ela baixou o nível. Mas por si se acalmará. A deixarei mansinha no dia que  a perceba em pé, num vagão lotado... A  tratarei conforme tenho adaptado a pátria morena, no que se refere  à férrea e austera disciplina ao meu estilo, conforme, há uns vinte minutos, os senhores já presenciaram.

Por melhor sorte, a essas alturas da viagem, o metrô vai diminuindo a velocidade. Aproxima-se a penúltima estação.   
Mas, apesar daqueles momentos de tensão, o velho deficiente ainda insiste em última azucrinada contra o Grande Construtor, na tentativa de fazê-lo apear das tamancas da falsa imagem, e tratá-lo conforme se revelou: - um rato de esgoto. De forma que atirou conforme segue ...

— E então? Recebeu, ontem, sua ajuda-pacau? Enfrentou o bandejão? Vê-se que o senhor está meio  torrado ...
— Claro ! Ninguém é de lata. As tetinhas da Pátria são pra isso ! Tava c’uma fome danada, amigo ! Depois do bandejão, a graninha da ajuda deu até para uns gorós, uma cafungada na farinha e quatro trouxinhas de erva, que as trago escondidas no interior do prepúcio enforcado na ponta, por um barbante.  
Apesar do recente mal entendido, veja, si'or, como prossigo gostoso da vida, com meus planos de governo e cabeça de emérito construtor daquela pátria.

Como aos costumes do povo alegre desta Pátria real, tudo se concluiu em risos, gozações, e abraços  ao  simplório palestrador. Alguém de certa educação até agradeceu:

— Enfim, chegamos. Final de linha. Muito agradecido, bravo imperador !  Nossa viagem tornou-se breve e agradável. Alvissareiras as suas mensagens. Também a nós, muito agrado despertou o seu estilo de governo. O senhor  deveria comparecer mais vezes nestes vagões do metrô, expondo suas metas governamentais.
Creio que receberia  espontâneas contribuições, já convertidas em PC$ (pacaus) dos seus aliciados de  momento .                                        
— Estou pensando nisso, meu futuro e subornável  vereador! De início, contribuições. Depois, quando eu já na governança daquela pátria... não faltarão tempestades de taxas, pedágios, tributos extorsivos. E enredamentos a terras urbanas de súditos a nós desalinhados, para torná-las de minha propriedade ou de qualquer um dentre os meus asseclas. Afinal, paralelamente, seremos os maiores loteadores urbanos daquela pátria.
Mas atualmente, se investigações, delegados  e promotores de justiça não me pegarem no pé - com minhas promessas e boa lábia a uns, ameaças e chantagens a outros - imagino extorquir pacaus suficientes aos caixa-2, 3, até 4, para a futura campanha eleiçoeira. Trata-se de mais uma grande virtude do meu estilo de governo.
Se, futuramente, milhões de pacaus quentes serão bem-vindos, imagine quanto aos frios ! 
 Por logística, penso em  confiscar elásticas cuecas de elefante para uso da minha equipe, que no noticiário do crime mostrará meu estilo de governo.
Por acaso, algum de vocês me auxiliaria como tesoureiro mor da  grana gelada?
Ouvindo o convite, todos da platéia prontamente  responderam:
— Eu... eu... eu... eu... eu...  ....

Então, referindo-se ao idoso da muleta, o Maluco zombou:

— Mas até o senhor está se dispondo a me auxiliar? E sua moral há minutos insinuada?
— Poderoso imperador da pátria que governaremos... dinheiro no atacado evapora a honestidade de qualquer um, inclusive a minha. De modo que já estou me sentindo no cargo de tesoureiro dos milhões e milhões de pacaus frios.
— Meu corrupto colaborador ... ótimo! Por sua condição de muito idoso em lastimável estado físico, se por algum motivo  os inimigos explodirem o bunker da nossa tesouraria, em matéria de perda humana nada se perderá. O senhor conte com a nomeação, para o nobre cargo de venerável tesoureiro dos pacaus gelados.  
Bem... Após a honrosa nomeação... meus queridos e futuros auxiliares subornáveis... para pavor das minorias éticas e cívicas, nas eleições daquela pátria a vitória será eternamente nossa...
A todos vocês, o meu abraço!


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