Redigido em 12-06-10
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— Pão Doce, por que sisudo? Preocupado? Novo surto... delírio mental?
— Surto? Surto do aporrinhador que está me abordando. Se um pensamento me causava prazer, agora é você que me aborrece.
O inquiridor se faz de desentendido e prossegue ...
— Mas o que de tão prazeroso tomava seu pensamento?
— Tomava! Agora não mais. Você me cortou o encadeamento das idéias, conforme sói acontecer com o aparecimento de tantas figurinhas chatas.
Meditava sobre o poder anestesiante de que disponho, para manipulação das massas incapazes ao raciocínio analítico, entre as fantasias do que ouvem e a prática de como vivem.
— Pode trocar todo esse volteio em miúdos?
— Todos desta cidade sabem que não sou de engatar conversações com qualquer um. Mas percebo que você está desinformado a esse respeito. E por sua inocência, lhe darei alguma atenção. Espero consiga entender-me.
Por exemplo, a fim de assegurar tranqüilo prosseguimento aos crimes e injustiças, praticados pelo banditismo por mim orquestrado, tenho ordenado, às aliadas organizações manipuladoras das massas, que incutam em todas as cabeças minha amansadora palavra de ordem. Principalmente pela Internet.
— Palavra de ordem às massas? Como assim, Pão Doce... Não entendi. Que eu saiba, massa é coisa pra pão e bolo.
— Mas... amigo cabeça de bolo! massa também serve de metáfora, referindo-se a parte amorfa e manipulável da humanidade, à qual você pertence. Dessa massa, mais do que pão e bolo, extraio muito dinheiro, pelas mais variadas formas de usurpação que concebo e coloco em funcionamento.
Explico melhor, veja como se faz intensa e anestesiante a seguinte palavra de ordem de minha preferência, claro que sempre associada à vontade de um deus a nós bonzinho.
Se meus traficantes de baixa hierarquia invadem até escolas para viciar e destruir seus filhos... a palavra de ordem é: — Perdoe !
Se corruptos e confrarias, a meu mando, assaltam dos cofres públicos o dinheiro dos seus impostos... — Perdoe-nos ! Indignação envenena sua vida.
Seqüestradores exterminam e levam o terror a sua família? — Perdoe! A bem da saúde, mantenha a alma leve, não é verdade?
Assassinam seus familiares com requintes de monstruosidade ? — Perdoe ! Porque não perdoar, se até deus, por nós pregado na cruz, nos perdoou... não é mesmo?
Gatunos roubam, ou assaltam seu lar? — Perdoe ! Você trabalha em horas extras... Melhor ainda: compra tudo novo. ehehehhh...
Meus crápulas, desses que freqüentam templos, que estão sempre falando em deus, mas que envolvem você em chantagens para extorquir seus bens? — Perdoe-nos ! O sofrimento o purificará para a vida eterna, filho!
Se em quartéis, alguns trombadões fardados assassinam sua fé pública, colocando-o sob chantagem até que chegue a morte física... — Perdoe-os ! Afinal trata-se de insignes e austeros heróis do honroso terror, caçadores de bruxas, marionetes de potência delinqüente.
Por fim, amigo, seja você também manso ovino — perdoe. A ignorância, quanto a hipocrisia, conforta a mente.
Perdoe todos os contumazes praticantes de perversidades.
Perdoe-os sempre, com santo riso nos lábios.
Preces pela conversão de todos nós, do parasitismo social!
Assim, com sua mansidão, perdoando e perdoando, você será feliz numa sociedade felicíssima, onde nós do crime planejado e charlatães possamos agir serenamente, sob a segurança dos perdões, nos conformes do nosso deus gente-fina.
Ei... ei... amigo... ainda não terminei! Porque me vira as costas e vai se mandando? Espere eu terminar o raciocínio... ...
Éhhh... mais um que me enche o saco... Me faz perguntas ... depois não agüenta o repuxo do que digo... Então, que vá pra p. que o pariu !
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